Depois Daquela Ponte – Capítulo 2

Aquela era uma noite especialmente boa para se observar o céu. Não havia nenhuma nuvem para bloquear a visão e a umidade do ar não estava baixa, o que favorecia para que a poluição não se tornasse um dificultador no ato de se admirar as belezas do cosmos.

Alberto ajustava seu telescópio para obter uma boa visualização, naquela noite ele pretendia observar a nebulosa de Órion, uma de suas favoritas, um magnífico berçário estelar, localizado na constelação de Órion, distante a, aproximadamente, mil e quinhentos anos luz de distância, facilmente localizada no céu, próxima das estrelas popularmente conhecidas como “as três Marias”,

Seu pai, que não era cientista, mas um grande admirador do espaço, havia lhe mostrado esta nebulosa quando ele ainda  criança, dizendo-lhe que ali, naquele pequeno ponto do céu, era onde nasciam as estrelas, uma pequena parte delas, e que as estrelas ali nascidas aos poucos iriam crescer e ganhar o universo, da mesma forma que um dia ele também iria crescer e ganhar o mundo.

Alberto, ainda muito pequeno, não entendeu muito bem como ele poderia ganhar o mundo, sendo que a maior coisa que ele já havia ganhado, até então, era uma bicicleta no natal. Mesmo assim, observar aquela imensidão de pontos brilhantes o fascinava.

Em uma de tantas noites em que seu pai lhe mostrara a magia do céu noturno, uma delas ficou gravada na memória de Alberto. Enquanto seu pai lhe mostrava uma estrela muito brilhante no céu, ele lhe disse:

― Filho, está vendo aquela estrela bem brilhante?

― Sim pai. ― respondeu o pequeno Alberto.

― Aquela estrela está há vinte e cinco anos luz de distância de nós. Sabe o que isso quer dizer?

Alberto apenas meneou a cabeça negativamente.

― Isso significa ― continuou, seu pai ― que a luz que estamos vendo agora saiu daquela estrela há vinte e cinco anos atrás. A luz é a coisa mais rápida que existe no universo e mesmo assim ela demora todo esse tempo pra chegar até aqui. E isso acontece porque as estrelas estão muito, muito distante de nós. A luz de cada pontinho desse no céu viajou durante muito tempo para chegar até nós. O céu é na verdade, uma grande janela para o passado.

Anos mais tarde Alberto pode entender melhor as explicações que seu pai lhe dera naquela noite e pode compreender o entusiasmo com o qual ele lhe contara todas aquelas histórias.

A soma de todos esses fatores foram determinantes para que, tempos depois, Alberto decidisse se tornar cientista. Como ele gostaria que seu pai visse o que ele conseguiu conquistar ao escolher a ciência como sua profissão. Sua empresa, em parceria com seu amigo Júlio, com apenas cinco anos de existência, já despontava como uma das mais importantes no cenário nacional e ele como um dos mais promissores cientistas do país. Ele havia crescido e aos poucos estava ganhando o mundo.

Observar toda aquela vastidão estelar o fazia sentir-se mais perto de seu pai, em especial a nebulosa de Órion, a primeira que seu pai lhe mostrara. Seu pai costumava lhe dizer que dentro de cada um de nós existe uma nebulosa como aquela, mas que produzem sonhos ao invés de estrelas. Sonhos estes que um dia ganharão o mundo e nos tornarão inesquecíveis.

― Veja se não demora muito. Já está quase tudo pronto aqui! ― disse, de dentro da casa, uma voz feminina.

― Tudo bem amor, só mais alguns minutos. ― respondeu Alberto sem nem ao menos tirar os olhos do telescópio.

Alberto ainda ficaria mais alguns minutos concentrado em admirar o cosmos, enquanto sua esposa dava os toques finais no jantar especial que havia preparado.

Helen estava ansiosa em lhe dar a grande notícia, por isso decidiu que deveriam passar o final de semana na casa de campo que haviam adquirido há pouco. Ela havia preparado o prato predileto de Alberto, lasanha à bolonhesa, e o cheiro estava ótimo. Os pratos estavam postos sobre a mesa, propositalmente virados para baixo, pois embaixo do prato de Alberto ela havia escondido um pequeno sapatinho de crochê de cor azul. Após alguns anos de tentativas e a superação de um aborto logo depois de terem descoberto a gravidez no ano anterior, Helen decidiu esperar até completar o quarto mês de gestação para contar a Alberto que ele seria pai de um menino.

― Já está tudo pronto. Não demore, senão vai esfriar. ― avisou Helen da janela da cozinha, que dava vista para o jardim onde estava Alberto.

― Ok amor, já estou indo. ― respondeu Alberto, mais uma vez sem tirar os olhos do telescópio.

Segundos antes de tirar os olhos da lente, Alberto sentiu uma estranha sensação. Interrompeu sua observação, ergueu a cabeça e deu uma olhada em sua volta. Não notou nada de diferente, além das árvores pouco iluminadas pela luz da casa. No entanto, ao virar-se um pouco mais, notou algo muito estranho. Uma luz parecia emanar por detrás de algumas árvores perto dali. Não era uma luz muito forte, porém iluminava as árvores mais próximas, possuía uma cor branco-azulada e parecia levemente cintilar.

Após alguns segundos de inércia e perplexidade, Alberto decide caminhar em direção àquela misteriosa luz. A cada passo que dava, notava que a luz parecia aos poucos enfraquecer.

Cuidadosamente ele seguiu rumo àquela luz, a fim de verificar o que poderia ser aquilo, sem saber que aquele fato estaria prestes a mudar sua vida e a de Helen.

[continua…]

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