Depois Daquela Ponte – Capítulo 1

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Pequenos estalos ainda emanavam da lâmpada da sala.

Minúsculos raios também podiam ser avistados circundando a luminária que estava acesa, mesmo estando claro lá fora, embora o sol não tivesse aparecido naquela fria tarde de julho. Entre a fina garoa, que insistia em cair desde os últimos dias, soprava forte um vento cortante, balançando as araucárias ao longe, bem como o grande ipê-da-serra ao lado casa fazendo roçar seus galhos sob o telhado. Esse mesmo vento também fazia debater a ventarola das janelas da velha casa, permitindo que adentrasse por entre os cômodos aquela fria sensação de inverno.

Sob o chão gelado daquela sala estava Eric, imóvel. Sua respiração parecia aos poucos retomar o ritmo normal. A lâmpada lentamente foi diminuindo seu brilho, até apagar-se por completo.
Os raios já não emanavam mais de sua luminária e os estalidos também não podiam mais ser ouvidos. Por um instante o vento cessou e no silêncio de sua solidão Eric buscava forças para despertar.

O relógio de madeira, pendurado acima da lareira, marcava quatro e dezessete. Aos poucos Eric tenta abrir os olhos.
Os objetos à sua volta até então não possuem forma muito bem definida. A claridade daquele ambiente ainda ofuscava sua visão.
Era como se ele tivesse saído de uma profunda escuridão e tentasse gradualmente recobrar sua visão.

Aos poucos alguns objetos vão tomando forma e Eric tenta entender onde está. Percebe que há um aparador de madeira no canto da sala, sob o qual estão alguns porta-retratos, todos
caídos, certamente derrubados pelo forte vento que insistia em bater em algo que logo ele pôde identificar como ventarolas de madeira. Do outro lado da sala havia uma lareira com um pouco de cinzas que se misturavam à poeira do chão. Acima dela um antigo relógio, igualmente empoeirado, tiquetaqueava sem parar.

Com a visão já acostumada à claridade do ambiente, Eric tenta levantar-se. Sente que está fraco, como se não houvesse se alimentado há dias, porém não sente fome ou sede. Apesar da
dificuldade consegue sentar e recostar-se à parede, tendo uma ampla visão do ambiente.

Era uma casa antiga, com móveis rústicos e igualmente antigos. Poderia muito bem ser uma casa de campo, pensou Eric que, ao olhar com mais atenção pôde reconhecer o sofá que
acabara de avistar.

Um sofá marrom com poltronas macias, nas quais Eric adorava apoiar suas pernas enquanto fitava o teto apoiando suas costas no chão. As lembranças de suas férias de verão na casa de
campo de seus pais logo invadiram sua mente, fazendo transbordar sentimentos de alegria, de bons momentos ali vividos.

Apesar de ainda não entender como havia chegado ou o que estava a fazer naquela casa, por alguns segundos sentiu-se feliz pelas recordações que teve.

Nesse mesmo instante em que Eric recordava e sentia novamente as emoções daqueles momentos de sua infância, uma forte dor inundou sua cabeça. Sentia como se mil agulhas
perfurassem sua cabeça de uma vez.

A dor era intensa.

Eric deitou-se novamente ao chão. Com suas mãos pressionava sua cabeça tentando arrancar aquela dor que parecia aumentar cada vez mais.

Era insuportável.

As mil agulhas pareciam agora tocar seu cérebro com o calor de centenas de vulcões.

E quando Eric pensou que não aguentaria mais toda aquela dor, pôde ouvir um grito vindo de um cômodo aos fundos da casa:

― Pai!

O grito soara como um pedido de socorro.

Subitamente toda aquela insuportável dor se foi. Eric ainda tentava compreender se ouvira mesmo aquele grito ou se fora fruto de um delírio oriundo daquela forte dor.

Até que ouviu novamente:

― Paaii! ― Insistiu a voz, agora num de desespero ainda maior.

Um calafrio subiu por sua espinha dorsal tomando conta de seu corpo. Aquela voz era de sua filha!

― Sara! ― gritou Eric.

Mesmo se sentindo fraco, levantou-se e tentou correr em direção ao cômodo de onde ouvira os gritos. Suas pernas vacilavam e por duas vezes caiu. Sentia como se seus músculos
estivessem atrofiados. Mas não desistiu. Jamais desistiria.

Ao chegar ao cômodo de onde se originaram os gritos um outro calafrio agora tomara conta de si.

Não havia nada naquele cômodo.

Correu então para o próximo e último cômodo do corredor.

Vazio.

Nenhum móvel sequer, em nenhum dos dois cômodos.

Não havia ninguém naquela casa além de Eric e os poucos móveis empoeirados da sala.

Nesse instante um questionamento irrompeu a mente de Eric, o que o fez perguntar para si mesmo:

― Quem é Sara?

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