O Guardião

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Lentamente começo a sentir a chuva fria caindo sobre meu rosto. Não sei exatamente onde estou e nem lembro como vim parar aqui. Sinto como se estivesse acordando de um sonho ruim, mas não consigo abrir meus olhos.

Aos poucos começo a compreender que não consigo mexer um único músculo do meu corpo. Estou imóvel. Deitado, ao que parece, ser um asfalto, que a cada instante fica mais encharcado pela pesada chuva que despenca dos céus.

Meu raciocínio ainda está lento. Me esforço para me lembrar dos instantes que antecederam à esse momento, mas é em vão. Minha mente parece enviar um comando para que meu corpo economize as últimas energias que parecem ter me restado.

Apago novamente.

Tenho a impressão de ter acordado pouco tempo depois. A chuva havia diminuído, mas ainda caía como uma fina garoa.

Eu ainda estava imóvel sobre o asfalto. Porém agora conseguia me lembrar dos instantes que me trouxeram até aqui.

As memórias surgiam aos poucos, eram flashes curtos que me faziam lembrar de breves instantes. Eram como frames de um filme que aos poucos iam se interligando e me faziam resgatar as lembranças quadro a quadro.

Nós estávamos em um restaurante. Ela estava linda, como sempre e eu estava nervoso, também como sempre. Eu mal podia acreditar que ela estava ali. Ainda conseguia lembrar da última vez que tinha visto aquele rosto, há exatos 14 anos atrás.

Naquela época eu ocupava todo o meu tempo com o desenvolvimento do projeto “Piloto X”. O intuito desse projeto era criar um sistema para operar os carros autônomos que seriam desenvolvidos pela empresa de carros elétricos da qual meu pai é o dono, a Volt Motors, cujas iniciais coincidem com seu nome, Victor Mondragon.

Durante o desenvolvimento do projeto, no qual eu era líder técnico, identifiquei que o Piloto X tinha capacidade de fazer muito mais do que apenas operar com segurança um automóvel. Foi então que paralelamente comecei a trabalhar de forma secreta no projeto “O Guardião”. Uma inteligência artificial que atuaria com diversos dispositivos eletrônicos com a finalidade de proteger o ser humano. Smartphones, câmeras de segurança, trancas eletrônicas, carros autônomos; O Guardião se conectaria à tudo que estivesse online para obter as mais diversas informações e assim garantir o mais alto nível de segurança às pessoas.

Há oito anos atrás os carros autônomos viraram realidade e os primeiros carros começaram a circular. Com análise dos dados sobre acidentes de trânsito nos anos seguintes, foi possível identificar que os carros autônomos não se envolveram em nenhum acidente, não cometeram uma única infração de trânsito sequer. Dessa forma o governo proibiu que os carros fossem dirigidos por seres humanos. A lei foi entrando em vigor de forma progressiva, até que dos últimos dois anos até hoje nenhum carro pode mais ser dirigido por humanos. Desde então nenhuma morte no trânsito foi registrada.

Emily parecia ouvir atentamente a tudo que eu lhe contara. O projeto Piloto X, o sucesso dos carros autônomos. No entanto não mencionei sobre o O Guardião. Ninguém nunca soube do projeto até então.

Ficamos conversando na mesa após o jantar. Tomamos um vinho. Eu sabia que não podia beber, mas não quis estragar o momento. Era uma noite especial, eu não poderia estragar tudo outra vez. Nada poderia dar errado.

Após o vinho mudamos o rumo da conversa, relembramos diversas histórias do passado e demos boas risadas. Nem eu me reconheceria se me visse com aquela desenvoltura, talvez eu devesse boa parte daquilo à coragem líquida que veio na garrafa trazida pelo garçom.

Após o jantar nós entramos no meu carro e tínhamos como destino o meu apartamento. Eu não estava me sentindo muito bem, sabia que não deveria ter bebido.

O carro seguiu pela estrada nos levando até meu apartamento que ficava um pouco longe do centro da cidade. Tudo seguia bem, até que em certo momento durante o caminho, em uma das curvas um caminhão invadiu a pista contrária e acertou violentamente o lado em que eu estava. Tudo aconteceu de forma muito rápida, foi em uma fração de segundo. Ainda me lembro de ter olhado para ela segundos antes da colisão.

Escuto sirenes ecoando ao fundo, elas parecem se aproximar lentamente. Eu ainda sigo sem mover um único músculo sequer.

Os paramédicos começam ali mesmo o atendimento, estão tentando me reanimar. Estão fazendo tudo o que podem e o mais depressa possível, cada segundo conta muito nesse instante. No entanto todo o esforço não parece adiantar.

– Estamos perdendo ele, os batimentos estão caindo.

– Precisamos levá-lo imediatamente. O único meio de salvá-lo é com o procedimento de nível 5.

– Mas doutor, esse procedimento ainda não passou pelos testes em todos os protocolos necessários!

– Esse rapaz é filho de Victor Mondragon, se falharmos em salvá-lo dê adeus à sua carreira.

– E submetê-lo à um procedimento que nunca foi aplicado não me parece ser uma brilhante ideia.

– Se ainda resta alguma chance à ele é com o procedimento de nível 5.

A maca começa a ser empurrada para dentro da ambulância e num lance de um reflexo quase que involuntário agarro o braço de um dos paramédicos e num sussurro quase inaudível eu lhe imploro:

– Salvem a moça!

– Ele falou alguma coisa! – disse o paramédicos aos gritos – O que foi que o senhor disse?

– Salvem a moça!

– Não há moça alguma aqui. No carro só havia o senhor.

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