A Soma de Todos os Medos

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Após uma semana de tanta tensão, mais uma dentre outras tantas que tive nos últimos dois anos, com discussões e enfrentamentos desnecessários, palavras ríspidas ditas em um tom quase ameaçador, era de se esperar que o desfecho de minha jornada naquela corporação estivesse próximo.

No entanto eu sabia que o ponto final naquele epílogo caberia à mim. Embora os diretores não gostassem de meu temperamento o que importava para eles eram os meus resultados. Não havia contestação, bastava olhar os números. Não há contestação frente aos números. Meus resultados eram os melhores dentre todos os demais executivos, inclusive àqueles há mais tempo na empresa e com salários maiores.

Porém, aos 35 anos eu estava no meu limite. Eu já não sabia mais porque eu trabalhava tanto. No fim tudo se resumia à dinheiro e status, e para isso eu não ligava mais.

Eu ainda estava na reunião, pelo menos em presença física. Ao fundo eu ainda podia ouvir os gritos e os murros que eram dados na mesa. Sempre se quer mais e mais. Isso um dia vai ter fim? Será que existe um limite para a ganância e o poder?

Essa era uma resposta que eu não tinha e talvez jamais tivesse.

Abri a porta e saí sem olhar para trás. Eu que sempre tive medo de perder aquele emprego, simplesmente caminhei até saída. Mal podia acreditar que descia por aquele elevador pela última vez. Enfim eu estava livre.

Após os 25 minutos de metrô eu já estava em casa. Peguei apenas o necessário, isso incluía meu fiel escudeiro Bob, é claro. Um labrador que comprei há cinco anos atrás. As pessoas me diziam que ele me ajudaria a superar o trauma do acidente. Mesmo tanto tempo depois eu ainda conseguia ouvir o barulho do carro rompendo a barreira de segurança e mergulhando no rio.

Como eu queria que Tomas estivesse aqui. Eles não poderiam ter parado as buscas. Sinto como se ele nunca tivesse partido. Sei que meu irmão ainda está aqui.

O medo não me deixava mais dirigir. Nunca mais havia pego um único carro desde o acidente na ponte. Mas dessa vez coloquei tudo no carro e Bob e eu aceleramos rumo às montanhas ao som de Led Zeppelin, eram as preferidas dele.

Respirar fresco era necessário. Um final de semana na casa de campo de meus pais, longe de toda aquela turbulência do centro da cidade, era que eu precisava.

A noite caía depressa naquela época de inverno, decidi logo acender a lareira e terminar de ler meu livro. Bob, como um bom companheiro, deitou-se ao meu lado.

Ao som dos estalos da lareira, cochilei.

Tomas e eu corríamos na floresta. Estávamos perto da casa de campo. Apostávamos quem chegaria antes ao lago. De repente um nevoeiro surge quase que instantaneamente e eu já não podia mais vê-lo. Um calafrio súbito percorreu minha espinha dorsal. Não posso perdê-lo novamente, eu pensei.

Foi então que comecei a chamá-lo. Mas não havia retorno. O desespero subia pela minha garganta. Eu tentava gritar o mais alto que podia. Era em vão. A minha voz estava presa dentro de mim. Cada vez mais o desespero aumentava. Tentei gritar outra vez. Eu não podia perder meu irmão mais uma vez. Foi então que respirei o mais fundo que pude e gritei como se minha garganta rasgasse. Eis que escuto um sussurro ao pé do meu ouvido: “eu estou aqui”.

Acordei suando frio.

O fogo da lareira havia apagado. Eu estava completamente no escuro.

Fui tomado por aquele medo do escuro o qual eu havia superado desde a infância. Bob já não estava mais ao meu lado e eu não podia vê-lo em meio à escuridão. Eu não conseguia chamá-lo. A escuridão havia trazido o medo e levado a minha coragem.

Respirei fundo.

Lembrei-me das palavras de meu avô, de como elas haviam me ajudado a superar todos os meus medos:

“Na escuridão de nossos medos residem os nossos maiores desafios. É preciso que acendamos a luz de nossa coragem para os enfrentarmos.”

Ouvi passos do lado de fora da casa. Não podia ser real. Só podia ser o meu medo que estava me fazendo ouvir coisas.

Mesmo assim passei a mão no atiçador que ficava ao lado da lareira e segui rumo à porta dos fundos.

Os passos em volta da casa pareciam mais fortes.

Segui devagar até chegar na porta dos fundos.

Eu podia agora ouvir uma respiração do lado de fora de casa. Era uma respiração num ritmo diferente. Ou era o meu medo que estava causando delírios ou então aquela respiração não era de um ser humano.

Nesse instante, dentro do peito meu coração debatia-se. As mãos suavam. Minha respiração era ofegante. Olhos e ouvidos pareciam mais atentos do que nunca. Nenhum movimento passaria despercebido. Segurei ainda mais forte aquele atiçador entre meus dedos. Eu tinha apenas uma chance. Não podia vacilar.

E numa velocidade que eu jamais pensei que pudesse ter, abri a porta. Num relance pude observar uma silhueta que rapidamente desapareceu no mesmo instante em que um canhão de luz invadiu meus olhos.

Lentamente o canhão de luz diminui o brilho. Aos poucos tudo à minha volta foi tomando forma.

Tudo é muito branco. É difícil entender onde estou. Parece ser um hospital, mas como pode? Como vim parar aqui? A última coisa que me lembro é estar na casa de campo.

Meus olhos já começam a se acostumar com a claridade. Aos poucos consigo reconhecer as coisas. Vejo que ao meu lado há uma outra maca e nela há um senhor bem idoso, já de cabelos brancos.

Me parece ser um rosto familiar, mas não consigo identificar quem seja. Seus traços me lembram muito alguém. Mas quem?

Com dificuldade consigo ler o nome gravado na pulseira de identificação, Tomas Alves Barros.

Meu irmão mais novo!

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