Seis e Quinze

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Seis e quinze. É o que marca a fraca luz do rádio relógio.

Quanta chuva cai lá fora. Quando a chuva é forte assim logo passa, era o que meu pai sempre dizia, embora eu discordasse de muitas coisas que ele dizia, nisso eu concordava.

Aquela reunião tinha mesmo que ser hoje de manhã? Logo na segunda-feira às dez horas? Quem é que consegue ter um raciocínio lógico antes do meio-dia? A única coisa que vem em meu pensamento antes do meio-dia é: “bem que eu poderia estar dormindo”.

Eu sabia que deveria ter adiantado na sexta-feira a pauta da reunião de hoje. Até parece que eu não me conheço. Era lógico que eu estaria, digamos, com pouca vontade de acordar assim tão cedo.

A chuva cai ainda com mais força. Assim vai ficar difícil sair da cama.

Quem é o tipo de pessoa que marca uma reunião na segunda-feira de manhã?

O rádio relógio ainda marca seis e quinze. Será que travou? Todos esses pensamentos indo e vindo e nem um minuto sequer se passou? O tempo é mesmo estranho às vezes.

Acho que vou cochilar só mais cinco minutos. Afinal eu já sei tudo sobre a reunião, consigo montar a pauta em dez minutos, no máximo quinze.

E foi como um breve piscar de olhos. Não deu nem tempo de esvaziar da memória os pensamentos anteriores. Mesmo assim olhei para ver as horas. Mesmo tendo certeza que haviam se passado no máximo dois minutos.

Ao olhar novamente aquela fraca luz do rádio relógio eu mal pude acreditar. Era impossível. Não poderiam ter se passado mais de quarenta minutos! Eu iria me atrasar. Chegaria no máximo a cinco minutos do início da reunião.

E como se num movimento único eu já havia trocado de roupa e descido as escadas. A chuva havia parado, ao menos isso. Assim poderia ir de moto, economizaria tempo, pois não ficaria parado no trânsito. Era a minha salvação. Subi na moto e acelerei.

O tempo passava depressa. Embora o ponteiro marcasse 120 km/h, súbitos instantes eram marcados em minutos no relógio. Parecia que a seta do tempo movia-se mais depressa que o normal. Era inevitável. Eu chegaria atrasado. À menos que eu o desafiasse. O tempo era meu inimigo.

Acelerei ainda mais.

Havia trânsito. Precisava ir pelo corredor que se formava entre as duas filas de carros. Era arriscado, eu sabia. Mas o tempo era meu inimigo. A seta do tempo conspirava contra mim. Eu não conseguia pensar em outra coisa.

De tanto anseio por vencer o tempo não percebi que a pista não estava totalmente seca e que pequenas poças haviam se formado durante o caminho. E em uma delas deslizei naquilo que não pude evitar. Deslizei no que eu não quis enxergar. Deslizei em mim mesmo.

E mais uma vez o tempo se torna protagonista, mas agora ele parece quase não passar. Consigo lembrar de quase tudo que vivi nesses vinte e sete anos. Foi tão pouco. Tão rápido. Foi como um breve suspirar antes de cair no sono profundo. Eu que quis tanto dormir sempre um pouco mais agora me vejo à caminho de um sono que não sei se irei acordar.

Nesse instante é tudo incrivelmente rápido e lento ao mesmo tempo. É um caminho sem volta. Sinto-me como a luz que ultrapassa o horizonte de eventos de um buraco negro. Não há como escapar. Estou à caminho da minha singularidade. Será possível haver recomeço onde parece ser o fim? E a cada instante tudo é cada vez mais lento, e mais lento, e mais lento…

Seis e quinze. É o que marca a fraca luz do rádio relógio.

Meu coração bate tão rápido que chega a doer. Será que foi tudo um sonho? Não pode ser, sonhos não são tão reais. Ao menos eu nunca tive um tão real assim.

E se não foi um sonho? Será que eu morri? Será que é possível morrer enquanto se sonha? Se morri, onde eu vim parar? Tudo à minha volta é tão familiar. Meu rádio relógio, meu violão, meu capacete. Ainda estou no meu quarto.

Seria isso algum tipo de segunda chance? E se quando morremos acordamos em um outro universo exatamente no instante que tomamos a decisão que determina se iremos morrer ou continuar a viver?

O rádio relógio ainda marca seis e quinze. Será que travou? Todos esses pensamentos indo e vindo e nem um minuto sequer se passou? O tempo é mesmo estranho às vezes.

Acho que vou cochilar só mais cinco minutos.

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